terça-feira, 2 de outubro de 2012

PESQUISADORES LANÇARÃO LIVRO NA 15ª FEIRA DO LIVRO DE BAGÉ

                  Capa do Livro “Cerros de Baye – Santa Tecla, Origens de Bagé”


Os pesquisadores Cássio Lopes e Edgar Lucas lançarão o livro “Cerros de Baye –Santa Tecla, Origens de Bagé” na 15º Feira do Livro de Bagé. A presente obra é fruto de quatro anos de pesquisas e traz ao lume questões instigantes e reveladoras tais como:

Ø  O primeiro mapa a referir o Posto Jesuítico de Santa Tecla, sua descrição no contexto missioneiro e sua localização mais plausível;
Ø  A representação mais apropriada da imagem de Santa Tecla;
Ø   A desmistificação do suposto Silo Jesuítico;
Ø  A não existência de Santo André dos Guenoas;
Ø  O que foi a Coxilha de Santo Antônio (Cognominado “o velho”);
Ø  O local da junção dos exércitos que atacaram as Missões no século XVIIl (cognominado “Campo das Mercês”). 

O lançamento do livro acontecerá às 17h do dia 05 de outubro de 2012, no estande principal da 15º Feira do Livro de Bagé, que está sendo realizada na Praça Silveira Martins, centro de Bagé.



Os autores ao lado do banner do livro no estante da LEB na 15º Feira do Livro de Bagé

Ou autores convidam toda a comunidade de Candiota, Pinheiro Machado, Piratini, Aceguá e Hulha Negra para que se façam presentes no evento. Pois estas cidades, inegavelmente, fizeram e fazem parte da história da Rainha da fronteira.









segunda-feira, 17 de setembro de 2012

COMBATE DO SEIVAL E PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA RIOGRANDENSE

                                     Local do Combate do Seival - Candiota-RS


Por Cássio Lopes:


Em 10 de setembro de 1836, a Província toda estava em poder dos Farrapos. Os chefes conservadores se haviam retirado para o Estado Oriental, vencidos nas refregas que sucederam.  O inverno havia arrefecido qualquer possibilidade de luta. Mas, a chegada da primavera já dava prenúncios de muita atividade.
O Coronel João da Silva Tavares, um dos poucos, senão o único comandante da Guarda Nacional que permaneceu fiel ao império. Apesar de ser compadre de líder farroupilha General Bento Gonçalves da Silva, não aceitou o convite para conspirar e fazer a Revolução. Tavares após um tempo refugiado no Uruguai entra em território brasileiro com alarido, como num passeio militar, chamando a atenção dos adversários.
Tomando as margens do arroio Jaguarão marcha até a Bolena e dali segue para o arroio Candiota, de onde manda pedir ao Comandante das Armas Bento Manoel às ordens para agir.
Acampado na barra do arroio Seival teve notícias de que no Passo do Lageado, no arroio Jaguarão, havia uma força, e foi reconhecê-la.
Era o Coronel Antônio de Souza Netto, com uma força farropilha, que também sabendo da presença de uma força imperial nas proximidades, sai para vê-la.
Inicia-se então o movimento de dois exércitos que em breve se confrontariam. João da Silva Tavares se colocou em um lugar próximo “a casa dos Lucas e à direita da estrada que se dirigindo de Bagé vai para Pelotas, deixando à esquerda um banhado”, conforme uns “apontamentos” existentes nos arquivos da família Silva Tavares. Estava, assim em posição vantajosa, onde poderia esperar a aproximação do adversário.
Nessa posição assumiu o comando da primeira ala e a direção geral da ação, cabendo a segunda ala da esquerda ao Major David Francisco Pereira. Na retaguarda, ficaram quatro companhias.
Antônio de Souza Netto, depois de localizar os imperiais, vinha em marcha resoluta, a ponto do Major João F. Caldwell profetizar que “Netto vinha para triunfar”.
Ao se confrontarem as forças descarregaram suas armas de fogo, mas depois houve o predomínio das armas brancas. Netto havia recomendado aos seus: “Camaradas, não quero ouvir um tiro mais... “À carga, à espada e lança!”. O combate foi terrível.
Inicialmente Silva Tavares carregou com vantagem e fez o adversário retroceder, levando-o de vencida. Mas, à esquerda comandada pelo Major David Pereira teve que recuar.
Nesse momento há um total desarranjo do combate. A cabeçada do freio da montaria de Silva Tavares é cortada, e seu cavalo sai em disparada. Criando-se assim um grande alvoroço entre os seus. David Pereira, querendo corrigir a ação, vendo a gente do Netto voltada para aquela inesperada confusão, manda o Tenente Pedro José Nunes compor a ala direita e arremete outra vez, para recuperar terreno. Atingido pro um tiro na coxa, cai do cavalo e sua gente se dispersa. O combate que se anunciara pressurosa se esfacela num instante.
Antônio de Souza Netto fica vitorioso em campo. O número de feridos, mortos e prisioneiros foi grande. Os farrapos perderam 1 capitão, 4 tenentes, 6 alferes e 156 soldados. E foram feitos 151 prisioneiros, sendo 2 majores , 1 capitão e Joca (mais tarde, chefe maragato na revolução de 1893), o filho do chefe imperial, com apenas 18 anos de idade.
A república não estava nos propósito da revolução farroupilha. Ela se fizera para protestar contra a política do império executava através do Presidente da Província Fernandes Braga. Deposto este, retornou a normalidade, que veio a se interromper com a chegada do novo Presidente Araujo Ribeiro que, apesar de liberal não teve a confiança de seus correligionários.
Embora houvessem homens com ideias republicanas, ela não era bandeira da revolução. Antônio de Souza Netto não se manifestara republicano em nenhum momento, assim como Bento Gonçalves da Silva. Contuto, a República Rio-Grandense nasceu e se institucionalizou.
Após o combate do Seival, a força comandada pelo Coronel Antônio de Souza Netto veio para o Passo das Pedras, sobre a margem esquerda do Arroio Jaguarão, em campos de Joaquim Menezes, a 35 km de Bagé. Todos estavam eufóricos e vibrantes com a inusitada vitória. O acampamento era festivo.
A noite do dia 10 de setembro de 1836, Manoel Lucas de Oliveira e Joaquim Pedro Soares foram à barraca de Netto para conversar. Comentaram o propósito político daquele movimento e a derrota da coluna do centro. No decorrer da entrevista, diz a Netto um dos interlocutores:
- Tanto os revolucionários como os legalistas empunham a bandeira brasileira. É preciso, entretanto, combater um princípio, por uma nova ideia, como a de República.
Netto recusou, alegando que era Bento Gonçalves que dirigia a revolução, e que não cabia a uma tomada de atitude daquela profundidade sem sua anuência.
Mostraram Lucas e Joaquim Pedro a inviabilidade de uma conferencia com Bento Gonçalves e a certeza de que este concordaria com a resolução, pois embora nunca houvesse proclamado de público essa ideia, a tinha no coração.  Depois de muito argumentar, Netto se deu por convencido e disse:
- Como os senhores dizem que se não mudam, a forma de governo, não podemos continuar a nos bater com os nossos inimigos hasteando a mesma bandeira, eu aceito a república. Tomem as providencias a fim de que ela seja proclamada amanhã, em nosso campo.
Os dois interlocutores completaram:
- Na ausência de Bento Gonçalves, que é o General em Chefe, deverão ser feitas promoções e o Coronel mais antigo é João Manuel de Lima e Silva que, além do mais, é oficial da primeira linha. Ele promovido a general, não agradará aos piratinianos e haverá a divisão entre os revolucionários. É preciso que o senhor seja aclamado no campo de combate.
- Aceito! Façam as ordens do dia para serem publicadas.
Naquela mesma noite de 10 de Setembro, ainda sob os reflexos da jornada gloriosa do Seival, Manoel Lucas de Oliveira e Joaquim Pedro Soares rascunharam os documentos de proclamação da República, e da promoção de oficiais para o Exército Repúblicano.
“Ao raiar o sol do dia seguinte, na margem esquerda do arroio Jaguarão, estava a força de Netto a cavalo. Netto apareceu com seu piquete a galope no flanco direito dela; depois que recebeu a continência, foi aclamado General em Chefe do Exército da República Rio-Grandense em campo de batalha. Joaquim Pedro mandou a força por pé à terra e formar em quadro, e dentro dele leu a ordem de dia e mais peças oficiais, ultimando aquele ato com vivas a República Rio-Grandense, ao General Netto e ao Exército Republicano do Rio Grande do Sul. Estes vivas foram respondidos com muito entusiasmo pela força e a República foi aceita pelo exército da mesma maneira”.
A partir de então, foi Antonio de Souza Netto quem “levantou e sustentou a bandeira tricolor da República com honra e gloria durante a ausência de Bento Gonçalves”.



                           Quadro da Proclamação da República Rio-Grandense
                                                  Pintura de Antônio Pereira



Fonte: Bagé e a Revolução Farroupilha –Tarcisio Antonio Costa Taborda, 1985, editora CECOM (Departamento de Artes Gráficas da FUnba)

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Núcleo de Pesquisas Históricas de Candiota recebe doação de livros de Pesquisador e Historiador.

               Cássio Lopes recebendo livros do Historiador Carlos Roberto Martins Brasil


Por Cássio Lopes

Após contato com o renomado historiador Carlos Roberto Martins Brasil, Cássio Lopes vice-presidente do Núcleo de Pesquisas Históricas de Candiota, salientou o interesse da entidade em adquirir os livros do pesquisador. Dias após, Carlos conseguiu grande parte de sua obra, a qual fez questão de doar o acervo para os Pesquisadores Candiotenses. Os livros Doados Foram:

Pioneiros Açorianos – Notas Histórias e Genealógicas, 2005, Livraria e Editora Edigal Renascença. 
Sesmaria em São Sebastião de Bagé - Primórdios do Povoamento - 2009. Livraria e Editora Renascença


“Agradeço ao Carlos pela doação dos livros, os mesmos serão de grande valia para nossas pesquisas”. Salientou Cássio Lopes.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

O ANTIGO HOTEL PARIS DE BAGÉ


                              Foto do Antigo Hotel Paris de Bagé



Por Cid Marinho, Bagé-RS


Inicialmente, este prédio foi à residência do Sr. Antônio Barbosa Netto, descendente do General Antônio de Souza Netto, herói Farroupilha. Esta excelente casa, tinha a sua entrada principal pela Avenida 7 de Setembro, e se estendia até a Rua Marechal Floriano, onde ficavam as "cocheiras!

Com o falecimento do Sr. Antônio Barbosa em 1924, o prédio foi alugado pela firma "Prati & Cia". que o transformou no requintado "Hotel Paris". Tempos depois, o prédio foi vendido por "150 contos de réis", para ser construído no seu lugar a sede do "Clube Comercial" em 1937. 


quarta-feira, 11 de julho de 2012

"O CHALET DA PRAÇA VOLUNTÁRIOS DA PÁTRIA".

                Foto do Extinto Chalet da Praça Voluntários da Pátria


Por Cid Marinho, Bagé-RS



Com a chegada da luz elétrica, clarearam-se os espaços e a segurança melhorou. A população que só conhecia as festas das salas de visitas e das casas de espetáculos, descobriu a diversão e o entretenimento noturnos, pelas alamedas da Praça. Foi mandado construir então, pelos senhores João Prati e Martim Rossel, um "Chalet" de madeira coberto de zinco, na antiga Praça (hoje Praça Silveira Martins). O Chalet foi inaugurado em 09 de Setembro de 1899, e no seu contrato dizia que os proprietários poderiam explorar o negócio durante 12 anos, depois passaria para a "Intendência Municipal". 

O "Chalet" funcionou ininterruptamente por 28 anos, e foi explorado por vários comerciantes. Durante um certo período, foi denominado "Chalet América", administrado pelo Sr. Antônio Fernandes de Oliveira. Em 1927, o Chalet foi desmontado, para ceder o seu lugar para o atual "Coreto Municipal".


      










quarta-feira, 27 de junho de 2012

BAGÉ BICENTENÁRIA: "A principal Avenida da Cidade"

                                          Avenida 7 de Setembro ontem e hoje



Por Cid M. Marinho, Bagé-RS.

 A antiga cidade ia por assim dizer, da "Igreja de São Sebastião" até o "Cemitério" atual. As ruas eram estreitas, sem iluminação, e sem calçamento. Foi o Marechal Hermes Ernesto da Fonseca, quando Capitão, que em 1855, mandou traçar as novas e largas avenidas, em direção ao Norte da Cidade. Em 17 de Outubro de 1860, com a aprovação da "Presidência da Província", a Câmara Municipal resolveu substituir o nome da rua principal, que antes era chamada de "Rua do Portão", para "Avenida 7 de Setembro".
Esta avenida, foi a primeira a receber o calçamento de pedras, e também a primeira a ter iluminação elétrica, em 1899. Nela foram instalados a primeira sede do antigo "Banco da Província do Rio Grande do Sul", e o primeiro "Cinema" da Cidade, em 1914. Até os dias atuais, a "Avenida 7", continua sendo a com maior número de "Prédios, Lojas, Bancos, Clubes, e Hotéis". Em contra partida, tem sido a Avenida mais agitada/congestionada de pedestres e motoristas, durante o horário comercial.

Na imagem antiga, cabe informar que no prédio bem à direita, aparece a extinta sede do antigo "Banco da Provincia do R.G.S.", inaugurado em 1914. E na imagem atual (que foi produzida no mesmo ângulo de vista que a antíga), existe hoje, o imponente prédio construído em 1928, onde também funcionou o antigo "Banco da Provincia", depois passou a funcionar nele o "Banco Meridional", e atualmente está funcionando o "Banco Santander".


quarta-feira, 6 de junho de 2012

O ANTIGO MERCADO PÚBLICO E EXTINTO POSTO DE GASOLINA DE BAGÉ

                                         Antiga foto da Rua General Sampaio



Por Cid Marinho, Bagé-RS

A presente foto, até então desconhecida da "Rua General Sampaio", Centro da cidade de Bagé, foi produzida em 1951 (Do alto do Ed. Salim Kalil). Na época ainda existia o antigo "Posto de Gasolina" construído em 1939 e demolido em 1973, para dar lugar ao atual e polêmico "Calçadão". À esquerda aparece parte da lateral do extinto "Mercado Público" construído em 1886, e demolido em 1954. Era um dos mais bonitos "Mercados" do interior do Estado, com a sua derrubada perdeu-se uma das principais referências da história e memória de nossa cidade. 



terça-feira, 15 de maio de 2012

TERTULIA ENTRE MATES E CANÇÕES



Dia 20 de maio a partir das 19:00 horas, no CTG Candeeiro do Pago em Candiota, acontece a quarta edição da  TERTULIA ENTRE MATES E CANÇÕES. O evento que já homenageou Leopoldo Rassier, Cesar Passarinho e José Claudio Machado, nesta edição homenageia o poeta e escritor natural de Santana da Boa Vista, mas radicado em Candiota desde 1974: SEVERINO RUDES MOREIRA. Serão 12 músicas entre as mais premiadas do autor e mais dois poemas, sendo um deles inédito e que fala em dois retratos de uma querência, ou seja, Candiota de ontem e de hoje. As obras serão defendidas pelos artistas locais e a participação especial de Tiago Cesarino, Zulmar Benitez e Sergio Rosa, com encerramento através da Invernada Artística “Os Candeeiritos”.
O evento terá além de uma jantar campeiro comercializado pelo CTG, vários sorteios de brindes a quem doar um livro novo ou usado. Acervo esse que será direcionado a Biblioteca Publica de Candiota.
Fica, portanto, um convite para prestigiarem esse evento e degustar a poesia desse autor com mais de 20 anos de estrada, acrescidas de belas melodias criadas por seus parceiros musicais e a voz afinada dos jovens cantores e cantoras de Candiota.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Núcleo de Pesquisas Históricas de Candiota tem nova diretoria

              NOVO PRESIDENTE JOÃO HENRIQUE DUARTE E CÁSSIO LOPES


No dia 14 desse mês, estiveram reunidos em Dario Lassance, os integrantes do Núcleo de Pesquisas Históricas de Candiota. Na oportunidade foi escolhida à nova diretoria da entidade que ficou assim composta:

Presidente: João Henrique Dill Duarte,
Vice-Presidente: Cássio Gomes Lopes,
Secretário: Luiz Carlos Machado Nunes,
Tesoureiro: Severino Rudes dos Santos Moreira,
Conselho Fiscal: Ivan Renildo Kasper, Cláudio Greco Castañeda e Daiana Moura Etcheverria.

Cássio Lopes, ao deixar a presidência do Núcleo ressaltou: “Em pouco tempo de existência, nossa entidade obteve várias conquistas importantes, não só para Candiota, bem como a região. Isto é fruto do trabalho em conjunto de pessoas comuns que uniram esforços em prol do coletivo e se engajaram para resgatar a história da nossa região”. Sobre a nova diretoria, Lopes destaca: “Inicia-se uma fase nova, na qual continuaremos a almejar conquistar novos horizontes e ao João Henrique desejo todo sucesso a frente desse tão importante trabalho”.


quinta-feira, 26 de abril de 2012

Núcleo de Pesquisas Históricas de Candiota Recebe doação de livros de historiador Bageense.

                           Cássio Lopes recebendo os livro de Cláudio Lemieszek



Após breve contato com o renomado historiador Cláudio de Leão Lemieszek, Cássio Lopes presidente do Núcleo de Pesquisas Históricas de Candiota, salientou o interesse da entidade em adquirir os livros do pesquisador. Algumas semanas após, Cláudio, consegui grande parte de sua obra, a qual fez questão de doar o acervo para os Pesquisadores Candiotenses. Os livros Doados Foram:

Bagé- Relatos de sua História,1997. Livraria Martins Livreiro
Bagé- Novos Relatos de sua História, 2000. Livraria Martins Livreiro
Governo e Governantes de Bagé - 1964-1978, 2003, Editora Praça da Matriz.
Notícias da Revolução de 1923 em Bagé – “A Capital da Paz”, 2008, Editora Praça da Matriz.

“Agradeço ao Cláudio pela doação dos livros, os mesmos serão de suma importância para nossas pesquisas”. Salientou Cássio Lopes.



segunda-feira, 9 de abril de 2012

Encontro do Passo da Conceição

                                Passo da Conceição, sobre o Arroio Candiotinha
                                        Fronteira entre Candiota e Pedras Altas


Por Cássio Lopes

Após o Combate do Cerro da Palma, localizado entre os arroios Candiota e Candiotinha, ocorrido no dia 15 de março de 1844, ficaram os imperiais sem cavalhada. Era urgente fazer a remonta. Por isso o Tenente Coronel Francisco Pedro de Abreu, o “Chico Moringue”, designou os seus oficiais Fidelis Paes da Silva, Emídio Rodrigues e Barão, com sessenta homens, divididos em três partidas, para recolherem a cavalhada nas estâncias sobre a fronteira da Banda Oriental.
As Vistas se voltavam para propriedades de parentes do General Antônio de Souza Netto, como José Netto e Domingos Netto.
A recorrida foi frutífera. Duzentos cavalos foram “requisitados” para o império, e eram conduzidos no dia 18 de março de 1844, na direção do Candiota.
O Coronel Antônio Manoel do Amaral, que trivera notícias dessa providencia de remonta, mandou o Tenente Coronel Camilo dos Santos Campelo aguardar o retorno dos “predadores”.
Alojando-se no Passo da Conceição, sobre o Arroio Candiotinha, hoje divisa entre os municípios de Candiota e Pedras Altas. O Tenente Coronel Campelo ficou na expectativa dos acontecimentos.
Ali se deveria dar o encontro das três partidas, para bandeando o Candiotinha, rumarem para a Serra dos Veleda, território pertencente hoje ao município de Pinheiro Machado, outrora Cacimbinhas.
Mandando espias acompanhar a aproximação de Fidelis, Emídio e Barão, ficou Campelo na espreita.
Cerca do meio-dia se aproximam os três emissários de Moringue, tangendo mais de duzentos cavalos.
Rumam em direção ao Passo, quando são surpreendidos pela gente do Tenente Coronel Campelo.
Dá-se o entrevero, e os Imperiais vendo-se em minoria, deixam os animais e desabalam em fuga, perdendo quatorze homens e oito cavalos.
A perseguição aos que fogem não é exitosa, já que se espalham em desordem.
A gente de Campelo volta para dar atendimento aos prisioneiros e à cavalhada, ao mesmo passo que o emissário vai levar notícia ao Coronel Antônio Manoel do Amaral, que ainda estava no Cerro da Palma.
A 19 de março, há o encontro de todos os farrapos. Na parte desse confronto, é narrada à valentia e o destemor de Fidelis da Silva Paes, Tenente de Chico Moringue. Como acentua Alfredo Varela: “Fidelis, tremebundo sujeito, conquanto de todos surpreso, não se acovardou. Bateu-se com o arrojo feroz de que deu mostras até o fim da vida em nossos tempos, numa das guerras civis do Uruguai”.

Fonte: Bagé e A Revolução Farroupilha-Tarcisio Antônio Costa Taborda


terça-feira, 6 de março de 2012

“SILO JESUITICO DE SANTA TECLA” COMEÇA A SER DESVENDADO. NA VERDADE, UM FORNO DE CAL.


                                                      Notícia-Silo Indígena


Por Cássio Lopes


Um mistério de 40 anos enfim começa a ser desvendado. Por ocasião das escavações na área do Forte de Santa Tecla, iniciadas em 1969, o renomado historiador Tarcisio Antônio Costa Taborda aproveitou a presença na cidade do arqueólogo Fernando La Salvia, para verificar resquícios de construções em pedra próximas dali, à beira do chamado Arroio Alexandrina. No entanto, a atenção era centrada nos resquícios do extinto baluarte, tanto que em janeiro de 1970 era inaugurado um museu no seu costado.
O mesmo arqueólogo retornou a Bagé nos anos 80, sendo que, em fevereiro de 1982, o então Correio do Sul trazia na capa uma surpreendente manchete: “ENCONTRADO INTACTO EM SANTA TECLA SILO INDÍGENA DE PEDRAS COM MAIS DE 300 ANOS”. Embora a relevância histórica, talvez tivesse sido ofuscada por outro acontecimento, traduzido num sentimento de luto para cidade na ocasião, que foi a morte do Bispo Dom Angelo Mugnol. La Salvia, posteriormente, apresentou um artigo durante o VII Simpósio Nacional de Estudos Missioneiros no ano de 1988, convencionando ser um “Silo” no que intitulou: “REMANESCENTES DAS ATIVIDADES AGRO-PASTORIS DENTRO DO ESPAÇO MISSIONEIRO”, onde relata: “Nossa atividade em 1984, foi prejudicada pelo uso indevido das terras onde se localiza o silo do Posto”. Entendia, porém, tratar-se do antigo Posto de Santa Tecla, pertencente a grande Estância de São Miguel. Ao descrever originariamente esse local: “Como área principal e central, a praça, no entorno, a Capela e as casas e, separadas por um muro, estão às estruturas pertinentes à atividade agro-pastoril propriamente dita” diz que entre 1969 e 1984 sobrou pouca coisa. Persistia, no entanto, intacto, o suposto “Silo”e algumas pedras que indicavam no passado a existência de valos ou cercas.
Mais recentemente, outras menções ao local encontram-se nas obras de Eron Vaz Mattos (Aqui Memorial em Olhos d’água/2003) e Elizabeth Macedo de Fagundes (Inventário Cultural de Bagé/2005), aludindo o estudo do falecido arqueólogo La Salvia. Por último, em janeiro de 2006, antevendo as comemorações dos 250 anos da morte de Sepé Tiarajú, ocorrida na chamada Guerra Guaranítica, autoridades locais após encontro na Câmara de Vereadores juntamente com um cacique guarani teriam visitado o “Silo”. No mesmo ano, Cláudia de Oliveira Uessler, em sua tese de doutorado em História na PUCRS, denominada: “SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS E ASSENTAMENTOS FORTIFICADOS IBERO-AMERICANOS NA REGIÃO PLATINA ORIENTAL”, analisando essas ruínas, referindo outro pesquisador, Antonio Lezama, sugere que a estrutura trata-se de um “forno de cal”. A mesma historiadora, em recente participação no livro: “MISSÕES EM MOSAÍCO / DA INTERPRETAÇÃO À PRÁTICA: UM CONJUNTO DE EXPERIÊNCIAS” (2011) ressalta: “improvável à hipótese daquela estrutura tratar-se de um ‘Silo’, pois localizado na barranca de um arroio, a umidade não favoreceria tal estabelecimento”. Comparou com algumas “caleras” também em ruínas existentes no nosso estado (São Nicolau e Caçapava do Sul) e no país vizinho Argentina.

              Edilberto Lucas e Cássio Lopes na limpeza da caleira

Ocorre que, por iniciativa do Núcleo de Pesquisas Históricas de Candiota, a cargo desse presidente, e por indicação do local através do escritor e poeta Eron Vaz Mattos, foram realizadas nos dias 03 e 07 de setembro de 2011, duas incursões, onde após a retirada de alguns arbustos que o cobriam, tomaram-se suas medidas e proporções. Logo a seguir, alguns questionamentos foram levantados. A umidade realmente não favoreceria o depósito de grãos ou sementes. O lugar era muito acanhado para um Posto Jesuítico, e finalmente: Seria possível até 1969 encontrar-se “intacto” um conjunto de estruturas beirando 300 anos ou mais? As próprias Missões Jesuíticas não resistiram e o que sobrou precisou ser restaurado.
Com ajuda de outro pesquisador bageense, Edgard Lopes Lucas, e após alguns estudos, começamos a desvendar o mistério. Foi frutífera igualmente algumas informações colhidas no Museu Antropológico do RGS, onde repousam alguns materiais da época das escavações e vindas a esta cidade, pelo arqueólogo Fernando La Salvia, e a atenção daquele quadro de funcionários, especialmente pelo Arienei Abreu, técnico em assuntos culturais. A partir do que La Salvia, chamado por Tarcisio Taborda referia, que a Capela próxima ao Silo tinha sua abertura voltada ao NE (Nordeste), concluímos não tratar-se do Posto Jesuítico. É que pelo Diário da Expedição escrito pelo capitão português Jacintho Rodrigues da Cunha, quando chegaram ao verdadeiro Posto de Santa Tecla em 1756, a abertura da Capela era voltada ao ocidente (Oeste). Outros documentos do século XVIII/XIX localizam o Posto Jesuítico em questão ao norte do que fora o Forte de Santa Tecla (e não ao leste, a posição do “Silo”). Por exemplo, no que copilou o famoso Pedro de Angelis: “...á principio Del año siguiente, se construyó El fuerte de Santa Tecla, uma légua mas al sud de uma poblacion que habian tenido nuestros índios Guaranís com el mismo nombre, cuyas ruinas aun se hallaban bastante frescas” (COLECCIÓN DE OBRAS Y DOCUMENTOS RELATIVOS A LA HISTORIA ANTIGUA/Buenos Aires, 1837). Também é notório que dito Posto de Estância foi totalmente queimado pelos próprios índios, ante a chegada dos exércitos espanhol e português durante a Guerra Guaranítica. Sendo constituídos os ranchos de paredes tipo“pau-a-pique” e cobertos com “santa-fé”, não havendo qualquer referencia de estruturas em pedra.

                                              Caleira já limpa


O que contribuiu decisivamente para a verificação de que o “Silo” nunca objetivou ser um depósito de grãos ou sementes e nem possuía 300 anos, foi à consulta a algumas fontes estrangeiras importantes, disponíveis na Internet. O renomado historiador Norberto Levinton, arquiteto e doutor em História residente em Buenos Aires, que colabora em restaurações de povos missioneiros, em artigo datado de 22/05/2010, intitulado: “ARQUITECTURA DE LAS MISIONES JESUÍTICAS” registra que: “En 1793 se compraron para la obra de La iglesia del Pueblo de San Miguel 5000 fanegas de cal (alrededor de 180.300kg) para abastecer la obra de recomposición del edifício, que vênia de una cantera a Santa Tecla”. O mesmo historiador indica a fonte pesquisada – AGNA (Arquivo General Nacional del Argentina, Sala IX, 5-4-3, 15 de enero de 1791). Outra fonte correlacionada diz que o “cal” era: “extraído de uma Calera ubicada em las cercanias Del Fuerte de Santa Tecla” (AGNA, Sala IX, 30-5-1, San Miguel, 12 de junio de 1793).
Mais outra fonte contemporânea, o historiador Ramón Gutiérrez, em artigo: HISTORIA URBANA DE LAS REDUCCIONES JESUÍTICAS SUDAMERICANAS: CONTINUIDAD, RUPTURAS Y CAMBIOS (SIGLOS XVIII-XX)” traz maiores detalhes sobre o suposto “Silo”. Anos depois da expulsão dos padres jesuítas da América, inclusive dos Sete Povos das Missões, ocorrida em 1768, e passados os períodos das demarcações do Tratado de Santo Ildefonso (1777), já em dezembro de 1792, sob a administração espanhola, o encarregado do Povo de São Miguel, Bartolomé Coronil, passou seis meses em Buenos Aires para tratar de sua saúde, e foi recomendado pelos demais pares de administração, integrantes do “cabildo”, para lá gestionar a reedificação do templo. Em 21 de abril de 1789 durante uma tempestade, um raio seguido de um incêndio, destruiu consideravelmente a “cubierta” sobre o transepto estendendo-se aos retábulos e portas daquela catedral. O argumento utilizado foi de que não ficava bem aos espanhóis e seus administrados “rezarem missa” em uma pequena capela adjacente, dedicada a Nossa Senhora de Loreto. Ainda na estadia da capital, se autorizou o reparo da igreja, tendo sido indicado o mestre de obras Rafael Azcura, que viúvo dispunha de tempo para a empreitada além de entender perfeitamente o idioma guarani.
Também descreve-se que: “Havendo alcançado permissão desta superioridade para uma calera nas imediações da Guarda de Santa Tecla no habiendo surtido efecto/contrata em 8 de setembro de 1793 com Juan Carlos Uriglia para por em porto de Acapuiau 5.000 fanegas de cal e pagar em erva de boa qualidade”.A quantidade de 5.000 fanegas de cal eram antigamente equivalentes a 180.300 kg.
Verifica-se, com isso, que o “Silo” originariamente foi idealizado como calera ou forno, embora por razões ainda desconhecidas não tivesse o êxito esperado, mas ficaram as edificações para os operários. Vale lembrar que suas mangueiras de pedras poderiam servir de paragem para animais, pois essa região também era caminho das tropas de mulas que saíam do Uruguay em direção a Viamão. Em 1801, quando da retomada definitiva da Coxilha de Santa Tecla e do baluarte pelos portugueses, chefiados por Patrício Correa Câmara, não se menciona o lugar.
Tais informações revelam que os “Silos”, em verdade, mais de um, foram uma tentativa no final do século XVIII de “fabrico de cal” ou “calcinação” e que serviria para reconstituir a igreja de São Miguel, famosa ruína do estado do Rio Grande do Sul. De fato, finalizaram a reforma, mesmo que tivesse ficado mais curta no comprimento da nave central e sem a cúpula no formato originário de “meia laranja”. Os administradores espanhóis e não os jesuítas levantaram o complexo à margem do Arroio Alexandrina, resguardado pela Guarda Espanhola, que subsistiu, mesmo após a primeira derrocada do forte, em 1776. Entulhos encontrados no seu interior (louças, vidros...) ali foram depositados mais recentemente.
O suposto “Silo” que nada mais é que uma “Calera” ou “Horno” como dizem os castelhanos, apesar de não ser do Período Jesuítico e nem pertencer ao antigo Posto de Santa Tecla da Estância de São Miguel, mas sim do Terceiro Ciclo das Missões, evidencia-se, igualmente, como um marco histórico para a cidade de Bagé, levantado na década de 90 do século XVIII. É de observar-se, que no próprio local, numa encosta de cerro existem até hoje vestígios de uma possível pedreira, bem como no próprio Arroio Alexandrina, mais ao sul, verificável até mesmo no Google Earth.
Portanto, se deduz a importância da revisão dos relatos de uma parte de nossa história, acontecimentos ocorridos antes dos 200 anos da fundação de Bagé.
Para finalizar, destacamos que o objetivo da presente matéria, em nenhum momento foi desmerecer o trabalho dos autores citados, pelo contrário, queríamos agradecer a: Eron Vaz Mattos, Elizabeth Macedo de Fagundes, Tarcisio Antônio Costa Taborda e Fernando La Salvia, pois se não fosse suas pesquisas nunca teríamos chegados a esse tão importante resultado.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Tratado de Paz de Ponche Verde

Duque de Caxias em 1845

Por Cássio Lopes
Em 1842, foi nomeado Presidente e Comandante de Armas da Província do Rio Grande do Sul, Luis Alves de Lima e Silva, o então Barão de Caxias, em princípios de 1843, já andava nos arredores de Bagé, em perseguição aos farroupilhas, cujo combate sem tréguas se propusera.
A zona da Campanha era o teatro das principais operações militares, e desde Alegrete até Bagé, estendia-se a ação do pessoal do Duque de Ferro.
Quando os farroupilhas sentiram-se extenuados da luta, e tiveram lugares démarches para a implantação da paz, da correspondência trocada entre Caxias e Bento Gonçalves, resultou a escolha de Bagé para o cenário das conversações. Assentada a data para o encontro entre os delegados rebeldes e o chefe das forças imperiais, para Bagé acorreram, por aqueles, o Pe. Francisco Chagas e Antônio Vicente de Fontoura, e por estes o próprio Caxias.
A seis de novembro de 1844, houve a primeira conferência, dela resultando outra, em quinze de novembro para as negociações finais. Quando Caxias com sua coluna chegou a Bagé para esse segundo encontro, foi recebido pelos habitantes do povoado, que lhe transmitiram a nova vitória dos legalistas sobre os farrapos, nos Porongos, interior do atual município de Pinheiro Machado. Era uma vitória há muito tempo ambicionada pelos imperiais, que não perdiam os passos de Canabarro para um encontro campal, a fim de poderem destroçar a última força rebelde. O Anseio por essa vitória era geral, pois uma derrota que se afligisse a Canabarro representaria um golpe de morte na Revolução e na República Rio-Grandense. Por isso, a satisfação dos bajeenses ao transmitir ao Presidente da Província, a notícia alvissareira. Esperava-se outro tanto do Barão de Caxias, e daí a pergunta do cura da Capela de São Sebastião:
- General, que horas deseja seja entoado o “Te-Deum”? (Cântico de ação de graças pela vitória obtida, que seria a manifestação de gratidão, a Deus, pelo fim próximo da Revolução).
Porém Caxias, que há muito tempo determinara que não se mencionasse nas partes dos reencontros o número de mortos, pois “mortes de irmãos não são títulos de vitórias”, respondeu a seu venerando interlocutor:
- Reverendo! Precedeu a esse triunfo derramamento de sangue brasileiro. Não conto como troféu de desgraças de concidadãos meus. Guerreio dissidentes, mas sinto as suas desditas, e choro pelas vítimas com um pai por seus filhos. Vá, reverendo, vá! Em lugar de “Te-Deum”, celebre missa aos defuntos, que eu, com o meu Estado Maior e a tropa que na igreja couber, irei amanhã ouvi-la, por alma dos nossos irmãos iludidos, que pereceram no combate. Entrou, depois, o Barão de Caxias, pelas ruas de Bagé, aclamado por todo o povo, e, no outro dia, juntamente com o representante dos farrapos, que viera para a Conferência da Paz, assistiu à missa que encomendara.
Caxias queria aproveitar, antes de tudo, a desunião dos chefes farrapos, iniciada durante a reunião da Assembléia Constituinte, para efetivar a pacificação. Sabia que as coisas entre os farrapos não iam bem, unicamente por causa da divisão entre os chefes, e que esta circunstância é que favorecia a paz.
Tão Logo regressou da corte do Rio de Janeiro o plenipotenciário farrapo Antônio Vicente da Fontoura, trazendo os documentos que complementariam as démarches que desenvolvera, passou a insistir para que fosse assinado o documento que finalizaria a guerra. Mas, de parte dos farrapos, foram surgindo empecilhos, adiamentos, que dificultavam o trabalho. Finalmente, na região de Ponche Verde, estavam reunidos os Imperiais e os Farroupilhas. Aqueles se achavam no Passo do Alonso, sobre o Rio Santa Maria e estes em frente ao Banhado da Carolina, atual município de Dom Pedrito. A dificuldade de reunir os chefes farroupilhas, em razão das desavenças existentes entre eles, só foi superada pela pertinácia de Caxias em insistir na obtenção da Paz. No dia 25 de fevereiro de 1845, conseguiram os farrapos ter a sua reunião, sob a presidência do General Canabarro, General em Chefe do Exército Republicano, quando foram discutidas as condições de paz e tomadas às deliberações conseqüentes. Em vista da decisão tomada pela unanimidade dos comandantes, Coube a David Canabarro elaborar e publicar uma proclamação alusiva a paz, dirigindo-se aos cidadãos, que “a continuação de uma guerra seria o ultimatum da destruição e do aniquilamento de nossa terra”, e aponta para um “poder estranho (que) ameaça a integridade do Império”. E conclui: “União, fraternidade, respeito às leis e eterna gratidão ao ínclito Presidente da Província, o Ilmo. e Exmo. Sr. Barão de Caxias, pelos afanosos esforços, que há feito na pacificação da Província”.
Tão logo o Barão de Caxias recebeu os documentos assinados pelos farroupilhas, tratou de lançar a sua Proclamação aos Rio-Grandenses, datada de 01 de março de 1845, no campo de Alexandre Simões, margem direita do Rio Santa Maria:
“Rio-grandenses! É sem dúvida para mim de inexplicável prazer o ter de anunciar-vos que a guerra civil que por mais de nove anos devastou esta bela província, está terminada. Os irmãos contra quem combatíamos estão hoje congratulados conosco, e já obedecem ao legítimo governo do Império Brasileiro. Sua Majestade o Imperador ordenou por Decreto de 18 de dezembro de 1844 o esquecimento do passado e mui positivamente recomenda no mesmo decreto que tais brasileiros não sejam judicialmente nem por outra qualquer maneira inquietados, pelos atos que tenham sido praticados durante o tempo da revolução. Esta magnânime deliberação do Monarca Brasileiro há de ser religiosamente cumprida. Eu o prometo sob minha palavra de honra. Uma só vontade nos una Rio-grandenses, maldição eterna a quem se recordar das nossas dissenções. União e tranqüilidade seja de hoje em diante nossa divisa. Viva a Religião. Viva o Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil! Viva a integridade do Império!”
No dia 2 de março já estava o Barão de Caixas em Bagé, com seu Estado Maior e um grande número de oficiais entre os quais o Coronel João da Silva Tavares. Posteriormente, dia 4 chega Bento Gonçalves ás 11 horas da manhã e ao anoitecer entra Antônio de Souza Netto, que conferenciaram com o Barão.Inicialmente o movimento Farroupilha não possuíra caráter separatista. Seus líderes desejavam o poder de eleger o presidente provincial, de ter câmaras de vereadores, de legislar e de recolher os impostos que deveriam servir para o desenvolvimento local. Conseguiram um acordo de paz bastante razoável, mas não alcançaram a meta de maior autonomia da Província, sua principal bandeira inicial. Contudo, mesmo com o enfraquecimento militar e desentendimento entre os líderes, a pacificação da Província de São Pedro foi conseguida através de um ajuste com o Império e não por meio de aniquilação em campo de batalha. Consequentemente, a certeza de ter mantido a honra e não ter simplesmente capitulado foi um forte legado dos farrapos para a construção da atual imagem regionalista do gaúcho.
Fontes:
Bagé e a Revolução Farroupilha – Tarciso Antônio Costa Taborda
Guerra Farroupilha: considerações acerca das tensões internas, reivindicações e ganhos reais do decênio revoltoso- Laura de Leão Dornelles
A PAZ DOS CARAMURUS, caderno de história nº 14 - Helga Piccolo


terça-feira, 31 de janeiro de 2012

General David Canabarro: Herói ou Vilão?

                                                      General David Canabarro

Por Cássio Lopes

General David Canabarro, por batismo David José Martins, nasceu no dia 22 de Agosto de 1796 em Taquari, RS. Já em 1811 – 1812 participou de campanhas no Prata e com apenas 15 anos entrava para o exército imperial do Brasil, saindo desta campanha com a promoção a cabo. Na Guerra Cisplatina David Canabarro recebeu a patente de tenente, devido a sua “intensa participação e coragem” como cita Alfredo Ferreira Rodrigues:
No combate do Rincão das Galinhas (24 de setembro de 1825) salvou o Exército Brasileiro de
desbarato completo, evitando a perseguição das forças inimigas vitoriosas com uma brilhante
carga de cavalaria que, com admirável precisão e denodo levou contra elas, dando tempo a
que se fizesse a retirada em boa ordem. Essa façanha valeu-lhe os galeões de Tenente.

Durante a Revolução Farroupilha (1835 – 1845), tornou-se uma das lideranças desta
revolta, obtendo diversas vitórias sobre o Exercito Brasileiro, antes defendido por ele; na Guerra dos Farrapos obteve a patente de Tenente-Coronel, atuando ao lado de Bento Manoel Ribeiro e Bento Gonçalves nas decisões e estratégias a serem usadas pelas tropas farroupilhas. Promovido o Coronel em 1837 David Canabarro também participou de batalhas para o surgimento da República Catarinense ou República Juliana ao lado de Garibaldi. Em 1841 Canabarro é nomeado General, devido aos seus relevantes serviços prestados à causa da liberdade Riograndense.
David José Martins adotou o nome David Canabarro por volta de 1836 ainda por razões não completamente esclarecidas: sabe-se que alguns de seus parentes já usavam o nome “Canabarro” desde longa data, este talvez seja o motivo pela qual David Martins transformou-se em David Canabarro, como sugere Ivo Caggiani, historiador Santanense:

Tudo leva a crer que alguma ligação deve existir com os “Machado” e os “Ferreira” de Vila
Pouca de Aguiar. Em conseqüência os descendentes dos nobres “Canavarros” de Portugal
devem ser os “Canabarros” do Brasil.
Canabarro tanto quanto militar era um comerciante de grande astúcia. Em parceria com seu tio-cunhado Antônio Ferreira Canabarro iniciaram uma forte sociedade, tanto como comerciantes como estancieiros. Adquiriram a primeira propriedade em 1834, no atual município de Santana do Livramento, a Estância da Alegria, já em 1846 compraram a sesmaria de São Gregório. Em 1847 David e Antônio separaram a sociedade ficando Antônio Ferreira na estância da Alegria e David com a estância São Gregório. Em 1849 David Canabarro juntamente com seu irmão João Martins adquirem uma área contígua a sesmaria de São Gregório, denominada sesmaria de São João, conhecida como Estância São João do Umbu e em 1858 eles também compraram as terras relativas à sesmaria de São Gregório pelo leste. Em 1867 David Canabarro casa-se com sua cunhada, ficando com todo o patrimônio pertencente a seu irmão já falecido. Durante os séculos XVIII e XIX diversos conflitos entre Portugueses e Espanhóis se deram na região de fronteira, principalmente no extremo sul do Brasil, no Rio Grande do Sul essa era uma área de extrema importância tanto militar quanto comercial devido às proximidades com o Rio da Prata e particularmente Montevidéu, de acordo com isso tanto Portugueses quanto Espanhóis possuíam um grande interesse nestas terras. Preocupado com as constantes invasões vindas da banda Oriental o governo Português nomeia diversos “comandantes da fronteira”: esses líderes eram encarregados de manter a linha fronteiriça e impedir novas invasões Castelhanas. O General David Canabarro é escolhido como um desses guardiões devido a seu total conhecimento da região já que há muito tempo residia no local que abrange as terras hoje pertencentes ao município de Santana do Livramento, fronteira entre Brasil e Uruguai.
Após a pacificação de Ponche Verde, Canabarro foi nomeado por o Barão de Caxias, Comandante de Fronteira, área que se estendia desde o curso do rio Quarai até Upamaroti, linha da Fronteira de Bagé, passando por Sant’Ana do Livramento, vila cuja importância estratégica muito crescera no decurso da Revolução Farroupilha.
Com a referida nomeação Canabarro mandou construir na então Estância São Gregório uma sede para seu Comando da Fronteira, esse local ficou conhecido como “Recreio”.
David Canabarro aparece na historiografia Riograndense como uma figura dúbia. Enquanto uns o defendem como herói, homem de grandes feitos, outros o acusam de covarde, traidor da causa farroupilha. Um dos eventos mais discutidos atualmente ao envolver o conflito Farroupilha e o nome de Canabarro é a batalha de Porongos. Na historiografia atual encontramos evidencias reveladoras sobre o caso. Na fase final da Guerra dos Farrapos, a batalha de Porongos, conforme as novas críticas foi onde, segundo consta, David Canabarro traiu os Lanceiros Negros, grupo de escravos que lutavam em troca de sua liberdade. Previamente avisado do avanço das tropas imperiais, desarmou o grupo de lanceiros negros e antes da batalha deixou-os para lutarem sozinhos e sem armas contra o exército imperial.

Conforme o Historiador Cláudio Moreira Bento, a base da tal acusação foi um ofício bem forgicado (falsificado) por Chico Pedro, como sendo assinado pelo Barão de Caxias para ele, no qual este lhe ordenava que atacasse Canabarro, pois este não resistiria conforme combinação entre ambos. E mais que ele aproveitasse "para atacar e eliminar os mulatos, negros e índios farrapos e poupasse sangue branco.
Esta falsidade atribuída a Canabarro fez o efeito esperado, entre os farrapos, num quadro de Guerra Psicológica, os quais em parte passaram a considerá-lo um traidor, até por interesse político escuso e como descarrego ou fuga de responsabilidades pelo insucesso militar da revolução que seria colocado assim na conta de Canabarro, "pelos demônios de todas as revoluções," segundo Morivalde Calvet Fagundes, o autor do mais completo livro sobre o Decênio Heróico. Ou seja perto do fim do insucesso de uma revolução, ocorre a caça de um bode expiatório e no caso em tela foi Canabarro, não habituado às guerras de alfinetes..
Este ofício falsificado, que tantas injustiças provocou à bravura, à honra e até hoje à memória histórica de Canabarro, teve a seguinte origem:
"Chico Pedro em perseguição a Canabarro e acampado no Pequeri, falou ao seu Major de Brigada João Machado de Moraes: És capaz de imitar a firma do Barão de Caxias? E ele respondeu: - A letra é boa e talvez eu possa imitar. Então vamos fazer uma intriga contra Canabarro. Pois ele é o único que pode sustentar a Revolução. Portanto vamos fingir um ofício assinado por Caxias para mim dizendo que no dia tal eu vá atacar Canabarro e derrotá-lo, visto haver entre o Barão de Caxias e Canabarro e oficiais deste um convênio."
Escrito o ofício com a assinatura de Caxias falsificada, Chico Pedro ao passar em Piratini pela casa de Manoel Francisco Barbosa, mostrou-lhe o ofício falsificado. E este, republicano extremado, mordeu a isca. E exaltou-se e copiou o dito ofício e o distribuiu. A intriga planejada fez o efeito desejado que até hoje perdura, sem que sejam analisadas as heróicas vidas de Canabarro e Caxias que negam a capacidade de fazerem tal acordo.
Mas, Félix de Azambuja Rangel em seu relato na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, 1º e 2º trimestre de 1928, p. 36-47, comprova a armação feita para abalar a confiança dos farrapos em Canabarro, o comandante de seu Exército, pelo seu grande e indiscutível valor militar como mestre consumado da Guerra à gaúcha, como se demonstra em sua biografia no livro: “O Exército farrapo e os seus chefes” (Rio de Janeiro: BIBLIEx, 1992, 2v).
Canabarro era único chefe republicano que realmente tinha verdadeiro prestígio para manter por mais algum tempo a luta, por isso bem compreenderam Caxias e Chico Pedro inutiliza-lo, indispondo-o com os outros generais e seu Exército, o que conseguiram com artificioso plano." ( WIEDERSPHAN, Convênio de Ponche Verde p. 72/73). Chico Pedro, chefe militar notável e grande estrategista, omitiu este fato em suas Memórias publicadas na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, 1921. Qual seria o motivo?
Ivo Caggiani em David Canabarro de Tenente a General, Porto Alegre Martins Livreiro - Editor, 1992 escreveu:
"Ainda que estivessem em andamento as negociações de paz, a grande preocupação de Caxias era realmente David Canabarro a quem nunca conseguira vencer" e, completaríamos, a que nunca Chico Pedro conseguira surpreender.”
Segundo o General Morivalde Calvet Fagundes em sua História da Revolução Farroupilha p.201:
“Canabarro ao assumir o Comando-em-Chefe do Exército da Republica, em agosto de 1843, manteve a sua tropa em movimentação e atividade constantes, através da Guerra de Guerrilha (A Guerra a gaúcha).
"Canabarro sustentou por 16 meses a Guerra de Guerrilha. Foi mais de um combate por mês. Caxias o perseguiu por 38 léguas, através de toda a fronteira sudoeste sem conseguir um encontro com Canabarro, que tentava repetir a tática vitoriosa contra General João Paulo dos Santos Barreto, em 1841, famoso engenheiro militar.
Como comprovação do fato, o próprio Caxias escreveu ao Ministro da Guerra Jeronimo Coelho:
"É sem dúvida a primeira vez que Canabarro é surpreendido, o que até agora parecia impossível por sua continua vigilância!"
Capistrano de Abreu, grande historiador do Brasil, assim interpretou os sentimentos do Exército Brasileiro, ao saber que o Duque de Caxias havia dispensado as honras militares:
"O Duque de Caxias dispensou as honras militares! Acho que ele fez muito bem! Pois as armas que ele tantas vezes conduziu à vitória, talvez sentissem vergonha de não terem podido libertá-lo da morte!"
Estavam junto com Canabarro na surpresa de Porongos os generais Antonio de Souza Netto, João Antônio da Silveira, Coronéis Manoel Lucas de Oliveira, Felipe Portinho e Teixeira Nunes e o Ministro Vicente da Fontoura dos quais jamais se ouviram desconfianças de lealdade e valor de Canabarro.
Canabarro lutou ainda na Guerra contra Rosas e na Guerra contra Aguirre, recebendo o título de general-honorário, título com o qual combateu os invasores na Guerra do Paraguai. Faleceu em sua estância, onde um ferimento no pé evoluiu para uma grande infecção e terminou por matá-lo em 12 de abril de 1867
Referências:
 Educação Patrimonial e a Pesquisa arqueológica do “Sítio Casa de
 David Canabarro” em Santana do Livramento, RS- Fabiana de Oliveira e André Luís    Ramos Soares

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Combate dos Porongos: surpresa ou massacre?

                                    Cerro dos Porongos, Pinheiro Machado-RS
Por Cássio Lopes

Em novembro de 1844 estava em voga uma suspensão de armas, condição fundamental para que os governos pudessem negociar a paz. Condição essa não cumprida por todos os envolvidos. Alguns historiadores, como o professor da PUC de Porto Alegre, Moacyr Flores, atribuem o episódio de Porongos à traição dentro das forças republicanas, para eliminar o grupo de Lanceiros Negros e acabar com um dos principais entraves às conversações da paz. Para ele, "os negros foram traídos em Porongos porque Caxias tinha ordens de não lhes conceder anistia. Levaram os negros capturados em Porongos e os que foram entregues pelos Farrapos para a fazenda de Santa Cruz e para o Arsenal no Rio de Janeiro". Historiadores dessa corrente cogitam que a matança teria sido combinada entre David Canabarro, o principal general farrapo, e Duque de Caxias, representante imperial, para exterminar os integrantes, que poderiam formar bandos após o término da guerra e forçarem a assinatura da Paz de Ponche Verde. De comum acordo decidiram destruir parte do exército de Canabarro, exatamente seus contingentes negros, numa batalha pré-arranjada, conhecida como a Combate dos Porongos. A questão da abolição da escravatura, uma das condições exigidas pelos farroupilhas para a paz, entravava as negociações. A libertação definitiva dos ex-escravos combatentes precipitaria um movimento abolicionista no resto do império, e a mão de obra escrava vinha mantendo a produção agrícola desde os tempos coloniais. Os Lanceiros Negros teriam sido previamente desarmados por Canabarro e separados do resto das tropas, sendo atacados de surpresa e dizimados pelas tropas imperiais comandadas pelo Coronel Francisco Pedro de Abreu, conhecido como Moringue.
Outros historiadores acreditam que a batalha de Porongos, foi um ataque sofrido pelo general David Canabarro – e não armado por ele em conjunto com o imperialista Caxias. Para Cláudio Moreira Bento, historiador e coronel reformado do Exército Brasileiro, autor de 70 livros, a maior parte deles sobre história militar, os Lanceiros Negros salvaram a República Rio-Grandense e o seu Exército de um colapso total, “através de resistência titânica que lhes custou muitas vidas, que contribuíram para a manutenção das condições honrosas de paz com o Império, como foi o Tratado de Ponche Verde, graças a Caxias”.
Vê-se então um conflito de versões. Para uns, Canabarro é vilão, para outros, sofre um ataque inesperado. Isso se deve a uma carta atribuída ao barão de Caxias, instruindo Moringue a atacar o corpo de Lanceiros Negros, que seriam previamente desarmados, e afirmando que tal situação teria sido previamente combinada com Canabarro. Esta carta foi mostrada em Piratini, a um professor ligado aos demais comandantes farrapos. A autenticidade desta carta foi questionada, tomando por base o depoimento de Azambuja Rangel(cunhado de Moringue), a mesma teria como objetivo principal a desmoralização da imagem de Canabarro. Seja a carta verdadeira ou não, o fato é que o combate de Porongos removeu um dos obstáculos mais complicados para o restabelecimento da paz no Rio Grande, uma vez que o império não admitia conceder a liberdade aos negros que haviam lutado ao lado dos rebeldes farroupilhas, o que, segundo alguns historiadores, seria considerado um "mau exemplo" para os escravos de outras províncias.
Tenha sido surpresa ou traição, de alguma maneira os negros farrapos foram separados do resto da tropa. Isolados e portando apenas armas brancas, os Lanceiros Negros resistiram bravamente antes de serem liquidados. O combate de Porongos, onde oitenta de cem mortos foram negros, abriu caminho para a Paz de Ponche Verde alguns meses depois. “Tombam os Lanceiros Negros de Teixeira Nunes, brigando um contra vinte, num esforço incomparável de heroísmo", segundo Cláudio Moreira Bento.
Artêmio Vaz Coelho, integrante do Núcleo de Pesquisas Históricas de Candiota e historiador de Pinheiro Machado, o qual pesquisou durante 15 anos a história do combate e dos lanceiros negros, embasando-se em teses e trabalhos desenvolvidos por diversos historiadores podendo destacar César Pires Machado, Carlos Marino Louzada e Morivalde de Fagundes Calvet, concluiu que a abordagem dos fatos que é feita sobre a batalha tem sido tendenciosa com as insinuações de traição aos famosos lanceiros negros. No entendimento de Artêmio o que ocorreu foi uma fatalidade em que pereceram os verdadeiros heróis republicanos.